Opiniões com Garra

Lagos pelo mundo – “Cresci a correr a Rua dos Burros sem cair, pelos quais aprendi a ler na Biblioteca Municipal”

“Cresci a correr a Rua dos Burros sem cair, pelos quais aprendi a ler na Biblioteca Municipal”

Eu tenho um hábito – não sei se irritante, regionalista ou vaidoso – que me faz apresentar sempre, além fronteiras, como
algarvia. Em Quioto, em São Tomé, em Marraquexe, em Brookyin, ou em Bruxelas, e de todas as vezes em que me
questionaram a nacionalidade, afirmei orgulhosamente a minha naturalidade lacobrigense.
– Sou uma miúda do Sul.
No Inverno de 1987 fui dos últimos bebés a nascer na Maternidade de Lagos. Isso não me faz mais amante da terra do que
todos aqueles que nasceram a 14km de distância mas é mais um dos motivos pelos quais adoro todos os centímetros do
nosso centro histórico, pelos quais cresci a correr a Rua dos Burros sem cair, pelos quais aprendi a ler na Biblioteca
Municipal e porque acredito piamente que os pastéis de nata do meu pai são os melhores do mundo. Acredito
verdadeiramente nisto porque tive a sorte de nascer e crescer em Lagos
Nós, os lacobrigenses, somos abençoados. E uns egoístas e uns distraídos, também.
Crescer em Lagos é ter a possibilidade de ter o mesmo professor durante todo o Ensino Primário. Saberemos que isso é um
privilégio? Lagos é uma das cidades mais bonitas do mundo.
É. Mesmo. Acreditem.
Não há escadas como as do Camilo, igreja como a de Santo António, baía como a da Meia Praia, ou trilhos como os de
Bensafrim. É romântico mas acredito até que somos mais tolerantes porque convivemos desde sempre com milhares de
turistas que nos obrigam a dobrar a língua num alemão salteado, num espanhol atrapalhado ou num francês mal conjugado.
No entanto, a cidade cresceu pouco a pensar na juventude que nela vive.
Durante muito tempo foi preciso existir crédito internacional para nos lembrar o quanto a nossa cidade é valiosa. Até lá,
sempre existiu algum queixume local sobre a falta de actividade tanto comercial como de turística ao longo do ano. Depois
desse alerta internacional ser dado continuamos a ter – muitas vezes mais repetidamente do que é suposto – uma atitude
egoísta e quase arrogante quando há alguém da terra que quer desenvolver ou fazer crescer algo.
Sai de Lagos aos 18 anos para estudar e até hoje, aos 30 anos, não há dia em que não pense em voltar para o meu berço.
Afinal, tenho sol o ano inteiro, peixe fresco diariamente, uma avenida para correr e a minha família mas pergunto-me que
desafios encontrarei: progressão na carreira, formação ou mesmo desenvolvimento comunitário.
Nós, lacobrigenses, temos, na generalidade, o mau hábito de aplaudir o trabalho de um jovem estrangeiro e de não olhar
para o suor do filho da nossa vizinha. Mais rapidamente nos desdobramos em candidaturas para apoio a vinda de um artista
italiano do que apoiamos a exposição de um jovem saído do Pólo de Formação de Lagos.
E digo-o no plural porque todos nós já tivemos este comportamento de forma consciente ou inconsciente quando ouvimos no
café que o antigo colega da escola abriu uma negócio e a primeira coisa que fizemos foi julgá-lo ao fracasso.
Sou emigrante no 9º país mais pobre do mundo.
Sou uma lacobrigense apaixonada pela sua cidade.
A quem de direito, há-de saber o que tem em mãos para mudar este cenário. Acredito na reciprocidade por isso cabe-me
perguntar, o que querem que eu faça para que mais jovens sejam ouvidos e apoiados?

Eliana Silva, 30 anos
Gestão de Comunicação e Marketing
Moçambique, Maputo