Opiniões com Garra

Aproveito para me queixar também

“Aproveito para me queixar também”

– O Caloiro é de onde?
– Sou de Lagos.
– Vá Caloiro, agora a sério.

Foi esta a primeira pergunta que me fizeram quando entrei na universidade. Voltei a responder “Sou de Lagos”. E se dúvidas houvessem à primeira, o meu sotaque denunciou-me à segunda.

– Se o caloiro é de Lagos, então já sei onde é que vou passar férias…
– Quando for diga-me, vamos tomar um café!

O texto que se segue vem na sequência de um convite da AGARRA. Começa por descrever algumas das situações que vivi enquanto jovem universitário a estudar fora de Lagos e termina com uma crítica construtiva relacionada com a juventude lacobrigense. Há uma clara diferença de humor a meio do texto. Comecei a queixar-me e gostei. Peço desculpa por isso.
Ganhei num concurso em que participei sem conhecer o prémio, um ano de propinas numa universidade privada perto de casa mas recusei. Escolhi ir estudar para a Covilhã. Lá, perguntavam-me inúmeras vezes o que fazia no Interior, sendo eu do Litoral. “Não, não tenho família cá. Não, conhecidos também não. Vim sozinho”, respondia. E era sempre assim que começava a conversa quando conhecia alguém. Explicar que não era maluco e que queria conhecer outra região, outra pronúncia, outro clima, outra realidade, e para isso tinha de vivenciá-la. A roupa de meia estação deu lugar aos casacões e à roupa polar e os ténis de pano às botas antiderrapante por causa da inclinação das ruas e da neve. Os ouvidos por vezes deixavam de funcionar por causa da altitude. O ar era diferente e a Imperial chamava-se Fino. Como se isto não bastasse, de comboio demorava 9 horas para vir de fim-de- semana a casa.
Após o primeiro ano decidi continuar o curso de Arquitetura em Lisboa. A experiência na Covilhã tinha sido ótima mas era tempo de conhecer outra realidade. Na capital, os Espírito Santo, os Champalimaud, os Franciscos Maria e as Marias João que estudavam comigo, fazem questão de dizer que vão muitas vezes passar férias à minha cidade. (Confesso que não tinha noção que a expressão “Estive lá de férias” fosse uma forma de ostentação e de provocar inveja no outro. Isto quando não dizem de forma bem audível “Tenho lá casa!”).
Desta vez já estava a 4 horas da minha família. Um luxo! Lisboa permite-me ir mais vezes de fim-de- semana, tem uma maior oferta cultural e uma coisa chamada trânsito! O percurso casa-faculdade que antes fazia a pé em 3 minutos, demora agora 1 hora e meia e é feito a pé, de autocarro e metropolitano. São situações como esta que me fazem gostar da escala de Lagos e da sua proximidade com os outros centros urbanos. Para além disso Lagos, assim como Tavira, é um dos poucos postais da nossa região que mantêm a sua identidade e que se soube contemporizar sem se desfigurar e transformar numa cidade igual a tantas outras de interesse questionável. É autêntico e é por isso que atraí cada vez mais turistas.

Em Milão, onde estive de Erasmus, conheci pessoas de várias nacionalidades que pensavam que Portugal era uma província de Espanha, mas todos sabiam que o Cristiano Ronaldo, o José Mourinho ou a Sara Sampaio são Portugueses. Pude ver os olhares de surpresa quando descobriam que as Portuguesas não têm bigode e de desdém quando algum português dizia que Portugal foi considerado o melhor destino do mundo pelo World Travel Awards. As notícias que comprovavam que era verdade, tinham como imagem a nossa Praia do Camilo, a mais bonita do mundo para a Huffington Post. Esse desdém que não era mais do que desconhecimento dava lugar à estupefação.
À semelhança dos nossos imigrantes que se tornam mais portugueses do que muitos que vivem no próprio país, nós, jovens que saímos de casa para ir estudar, tornamo-nos também embaixadores da nossa cidade. Cada vez que regressamos não temos uma rotina a cumprir. O olhar está destreinado e como estamos curiosos em saber o que mudou olhamos de facto para as coisas. Dedicamos-lhes tempo.
É por ser primeiro que tudo a nossa cidade, um lugar onde a maioria dos nossos pais, avós e antepassados cresceram e acrescentaram valor, que nós enquanto jovens residentes e não residentes devemos exercer uma cidadania mais consciente e interventiva. Não compreendo porque é que somos uma juventude tão pouco participativa em causas, eventos, associações, partidos, … Que cidade queremos ter quando cuidarmos dos nossos filhos e dos nossos pais? Porque somos tão apáticos se a juventude é quem mais age por impulso? Sentimo-nos desacreditados? Estamos de facto alheios às questões do nosso município ou somos conhecedores e preferimos passar por indiferentes? Porquê esta postura? É a juventude que tem o poder de terminar com um dos grandes problemas da sociedade portuguesa: a resignação. Melhoremos esse aspeto no património humano do nosso território tão reconhecido pelo património natural. Esse sim, seria mérito nosso. Sintamos orgulho por pertencermos a um dos destinos mais cobiçados do mundo mas acrescentemos também valor. Continuemos a saber receber o que nos escolhem para passar uns dias, uma temporada, a reforma. Investamos mais em nos aprimorarmos, em evoluir. Criemos ideias, projetos, reconheçamos o que é bem feito na nossa autarquia e sejamos incómodos quando o contrário acontecer. Pensemos antes de reagir, sejamos ativos com conhecimento. Não nos conformemos com o trabalho no verão e o descanso no inverno. Somos sortudos por sermos de Lagos, aproveitemos. Somos a geração do futuro, sonhemos.

Diogo Pacheco, 23 anos
Finalista do Mestrado Integrado em Arquitetura na FAUL