ArtigoOpiniões com Garra

“Vocês é que são os bons!”, dizia a Senhora Professora Margarida Agostinho da antiga escola Gil Eanes.

“Vocês é que são os bons!”, dizia a Senhora Professora Margarida Agostinho da antiga escola Gil Eanes.

 

O jovem Lacobrigense do princípio deste milénio, usava argola na orelha esquerda, óculos escuros da Arnette, roupa estilo skater (muito provavelmente fornecida pela loja Adrenalina na Rua Infante Sagres), cabelo comprido russo de tanta praia, barba mal aparada e mal semeada, curtindo os últimos sons num discman, com CD pirateado adquirido por meios menos convencionais.

Este jovem era eu. Um “puto” que curtia de praia, de bola, de bikes, de sair à noite, completamente adaptado ao “ecosistema” Lacobrigense.  Até que um dia, em 2004 o secundário terminou e foi necessário ser adulto e tomar decisões. Com 18 anos, Lagos ficou para trás e com ela a minha adolescência.

A minha realidade era semelhante à de tantos outros filhos da cidade, uns com mais benefícios que outros, mas que no fundo, todos tentamos lutar por uma vida melhor que a dos nossos pais, numa cidade que infelizmente é um espelho do realidade do nosso país.

Mas nós, Lacobrigenses somos uma “espécie” especial. Filhos de uma cidade que se abriu para o mundo há mais de 500 anos atrás, com uma herança genética e cultural influenciada pelos 4 cantos do planeta, cidade essa que nos ensinou a beleza de viver em liberdade e tolerância e que fez de nós peritos na apreciação dos prazeres simples da vida. Mas, por tudo o que temos de bom, somos igualmente maus a reconhecer e a dar valor a nós e aos nossos.

“Vocês é que são os bons!”, dizia a Senhora Professora Margarida Agostinho da antiga escola Gil Eanes. E tinha razão! Conheço muitos alunos da mesma escola espalhados pelo mundo e por Portugal que se tornaram profissionais incríveis. Desde Chefes de cozinha, Enginheiros, Profissionais de saúde, Pilotos de carreira, Atletas, Designers, Artístas, Economistas, Arquitectos… Um pouco de tudo.

O jovem Lacobrigense tem uma abertura de mente acima da média portuguesa. O Algarve, através do turismo, oferece uma exposição a todo o tipo de gentes que nos torna mais tolerantes e cultos.

Nós temos uma aptidão para línguas acima do comum. Depois de passar verões  a interagir com gentes de todo o mundo.

Sabemos também ter espírito de sacrifício. A maior parte de  nós sabe o que é, não ter segurança no trabalho devido à actual realidade socio-económica do país.

E acima de tudo, o jovem Lacobrigense é um romântico! Crescer na nossa cidade, durante uma fase da vida onde a responsabilidade é mínima, cria uma imagem idílica no nosso imaginário que nem sempre corresponde à realidade da vida adulta, consequência de viver uma juventude feliz.

O que vale um fim de tarde com suestada na Meia praia, de sol posto e de “molho” na àgua, onde o tempo parece parar e todos os problemas aparentam desaparecer? Ou o que vale um almoço em família com uma sardinha gorda de Agosto que ensopa uma fatia de pão da Dona Conceição com gordura que sabe a ouro do mar? O que vale uma fatia de bolo de amêndoa e gila, da tia cuja principal missão na vida é engordar todos os seus sobrinhos, e que vive determinada a passar de geração em geração a receita ancestral da família? O que vale um croissant de frango com sumo natural de laranja e cenoura, depois de uma manhã a “assar” na praia do Pinhão, que serve de recompensa à caminhada heróica sobre o calor do meio dia necessária para lá chegar? O que vale um passeio de bicicleta com os companheiros de estrada  pela barragem da Bravura, com paragem obrigatória no Cotifo para aquecer o espírito e o físico, com um shot de medronho caseiro que através do sabor e o cheiro nos relembra que somos filhos desta terra?

Por tudo isto e muito mais, tu, meu “puto”, tu tens mais valor do que pensas. Não deixes que o país dite os teus sonhos e ambições. Questiona tudo e todos. Tem coragem para descobrir e enfrentar o mundo ou coragem de ficar e enfrentar os velhos fantasmas da nossa sociedade. Cultiva-te! Porque não há maior ferramenta que a tua educação e o teu conhecimento. E um dia, tu e eu, meu “puto”,  nós seremos a chave para mudarmos o rumo da nossa cidade e do nosso país.

 

Pedro Joaquim Montes do Carmo, 32 anos

Médico de Medicína Familiar

Reino Unido, Inglaterra

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